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O que falar Sobre histórias de fadas?

Written By Brunna Isabel on quinta-feira, 28 de agosto de 2014 | 19:18



Um dos atos mais cruéis da vida humana é o crescer. Crescer e deixar a vida infantil, cheia de aventuras em que cada dia é aprendido algo novo, é despertado um sentimento descoberta e toda descoberta é uma virada imensa na vida. Um fator que causa esse deslumbramento e é capaz de causar reviravoltas em nossas mentes e corações, quando somos crianças, certamente são as histórias de fadas. Elas são, certamente, as formadoras de nossos pensamentos, consciência moral e, arrisco dizer, até auxiliam na capacidade criativa. Mas o que realmente são contos de fadas? O que faz um conto ser “de fadas”, e qual influência podem ter sobre nós?
Tolkien, considerado por muitos o pai da fantasia moderna, em seu ensaio Sobre histórias de fadas tenta explicar, afinal, essas questões. Primeiramente, o que são histórias de fadas? No ensaio, Tolkien já inicia indo de encontro com a ideia de fadas. No lexicógrafo, caracterizava-as como seres sobrenaturais e diminutos e, já neste início, o pai da fantasia afirma que nós somos seres sobrenaturais, já que as fadas são seres bem mais naturais que nós; e quanto ao diminuto, seria uma característica moderna criada para justificar o não encontro com estas criaturas viventes do Belo Reino.
“Sobrenatural é uma palavra perigosa e difícil em qualquer um de seus sentidos, seja mais amplo ou mais estrito. Mas dificilmente poderá ser aplicada às fadas, a não ser que sobre seja considerado meramente um prefixo superlativo. Porque é o homem que é, ao contrário das fadas, sobrenatural (e muitas vezes de estatura diminuta), ao passo em que elas são naturais, muito mais naturais que ele. É a sua sina.”
“Antigamente havia de fato alguns habitantes do Belo Reino que eram pequenos (mas certamente não diminutos), porém a pequenez não era a característica desse povo como um todo. O ser diminuto, elfo ou fada, é na Inglaterra (eu acho) em grande parte um produto sofisticado da fantasia literária. Talvez seja natural que na Inglaterra, onde o amor pelo delicado e fino frequentemente ressurgiu na arte, a fantasia se volte, nessa questão, para o gracioso e diminuto, assim como na França ela foi à corte e se cobriu de pó de arroz e diamantes. [...] Porém, suspeito que essa miudeza de flores e borboletas também tenha sido produto da racionalização que transformou o deslumbramento da terra dos Elfos numa mera sutileza e invisibilidade, numa fragilidade que podia esconder-se numa prímula ou encolher-se atrás de uma folha de capim.”
O Belo Reino é o local onde vivem as fadas e criaturas fantásticas, mas não se engane, este local não é um plano secundário, ele se encontra dentro deste nosso plano primário e abriga as diversas criaturas que conhecemos como trolls, elfos, fadas, e várias outras. E isso é outro ponto que ele trata: ao se propor a escrever sobre o Belo Reino, faz-se necessário o respeito as suas leis, pois quando escrevemos sobre histórias de fadas, não passamos de subcriadores daquele mundo.
“O Mundo Primário, a Realidade, é o mesmo para elfos e homens, ainda que valorizado e percebido de modo diverso. [...] A Arte é o processo humano que produz Crença Secundária como subproduto (esse não é seu objeto único nem final).”
“Mas numa “fantasia”, tal como a chamamos, surge uma nova forma: o Belo Reino vem à tona, o Homem se torna subcriador.”
Ou seja, somente pela arte seria possível fazer uma Crença Secundária que seja capaz de trazer o espectador/leitor para dentro deste mundo primário, mas sem se esquecer de que as regras devem-se ser respeitadas. Uma das críticas de Tolkien ao seu amigo Lewis (As Crônicas de Nárnia) era sobre a sua forma de juntar várias “mitologias”, sem respeitar as regras daquele Belo Reino.
“Por trás da fantasia existem vontades e poderes reais, independentes da mente e dos propósitos do homem.”
E o que seriam estas regras? Tolkien defende que os contos de fadas necessitam de uma moral inerente e, também, de não significação alegórica – outra crítica do professor às Crônicas de Nárnia, pela grande significação alegórica com a Bíblia -, além de respeitar os seres do Belo Reino, não os confundindo com seres de fábulas ou histórias oníricas. Não podem ser fábulas, pois, apesar do fantástico e da moral inerente, os personagens, em grande maioria, são animais que não somente falam, mas possuem personalidades humanas – é uma linha muito tênue que separa algumas fábulas de contos de fadas. Assim como não podem ser, também, histórias oníricas – tais como a de Lewis Carrol, Alice no país das maravilhas – pois estas histórias não aconteceriam no plano primário, e sim em outro plano – apesar de que essas histórias podem muitas vezes inspirar contos de fadas.
Aliás, estas alegorias seriam o que diferiria uma mitologia de uma história de fadas: pois os deuses mitológicos muitas vezes são personificações de fenômenos ou de desejos humanos; ou seja, não passariam de meras alegorias e não poderiam se encontrar dentro do Belo Reino.
“Então o épico, a lenda heroica e a saga localizavam essas narrativas em lugares reais e as humanizavam, atribuindo-as a heróis ancestrais, mais poderosos do que homens e no entanto já homens. E finalmente essas lendas, ao minguarem, transformaram-se em contos populares, Märchen (contos de fada em alemão), histórias de fadas – contos infantis.”
No livro, o professor aborda questões interessantes, e chega na relação entre as crianças e os contos de fadas:
“Na verdade, a associação entre crianças e histórias de fadas é um acidente de nossa história doméstica. No mundo letrado moderno as histórias de fadas foram relegadas ao “berçário”, assim como a mobília velha ou fora de moda é relegada à sala de recreação, principalmente porque os adultos não as querem mais e não se importam se a usarem de forma inadequada. Não é a escolha das crianças que define isso. As crianças como classe – classe que não são, exceto pela falta de experiência que lhes é comum – não gostam mais das histórias de fadas nem as compreendem melhor do que os adultos, e não as apreciam mais do que muitas outras coisas. [...] certamente é um gosto que não diminui, e sim cresce com a idade, se é inato.”
Partindo disso, percebe-se que os contos em questão não foram feitos com consenso das crianças, muito menos são sobre ou para crianças lerem, já que nem todas sabem ler, mas sim são jogados para elas; e, também, sabe-se que os contos de fadas não são feitos por crianças, mas sim por adultos, o que derruba a teoria de que contos de fadas são coisas de crianças.
Tolkien então prossegue com a afirmativa de que os adultos deveriam ler contos de fadas como um ramo da literatura, e não brincando de serem criança ou apenas lendo para elas, entrando aí na questão sobre os valores que este tipo de literatura agrega, não só no campo da literatura como também no da arte em geral, e eis que são:
“…as histórias de fadas também oferecem, em grau ou modo peculiar, estas coisas: Fantasia, Recuperação, Escape, Consolo – todas elas coisas de que as crianças em regra precisam menos do que os mais velhos.”
Em fantasia, ele traz à tona a imaginação, mas não o termo deturpado que temos hoje em dia.
“A Imaginação muitas vezes tem sido considerada algo mais elevado do que a mera criação de imagens, atribuída às operações relacionadas a Fancy (uma forma reduzida e depreciatória da palavra mais antiga Fantasy). Assim tenta-se restringir, eu deveria dizer perveter a Imaginação ao “poder de dar a criações ideais a consistência interna da realidade.”
E, na parte da fantasia, o professor critica a tentativa de reprodução do Belo Reino em dramas: por serem apenas tentativas, não conseguiriam chegar ao Belo Reino e causar o espanto – exceto raras exceções, nas quais há uma simplicidade mágica que chega a beirar ou entrar no Belo Reino. Sem contar que “O drama é antropocêntrico. A história de fadas e a Fantasia não precisam ser.”.
“E de fato as histórias de fadas tratam em grande parte, ou (as melhores) principalmente, de coisas simples e fundamentais, intocadas pela Fantasia, mas essas simplicidades tornam-se mais luminosas pelo seu ambiente.”
E assim mostra que o fantástico não é apenas aquele algo mágico – característica atribuída aos seres que fazem magia -, e sim “São precisamente o colorido, a atmosfera, os inclassificáveis detalhes individuais de uma história e, acima de tudo, o teor geral que dotam de vida os ossos não dissecados do enredo, que realmente fazem a diferença.”
É difícil conceber a fantasia. Muitos podem até formar alguma imagem escrita, a qual foge da nossa ideia de mundo primário, mas isso não é o suficiente, pois continua apenas sendo “fantasiosa”, apenas sendo pequenos reproduções. Entretanto, se um autor consegue criar um Mundo Secundário dentro do qual essa imagem diferente de Mundo Primário seja verossímil, há uma “rara realização na Arte, a arte da narrativa, a criação de histórias”.
Ao falar sobre a Recuperação trazida nos contos de fadas, ele atende não só como satisfações imaginativas de antigos desejos, de recuperar os bons tempos em que tudo era mágica e inovador, e até as coisas mais banais causavam espanto nas crianças. Quanto ao Escape ele dá duras críticas a quem acha que o Escape é um adjetivo pejorativo para um tipo de leitura, afinal, quase todas as leituras são de escape. Ele faz uma brilhante metáfora:
“Por que um homem deveria ser desprezado se, encontrando-se na prisão, tenta sair e ir para casa? Ou se, quando não pode fazê-lo, pensa e fala sobre outros assuntos que não sejam carcereiros e muros de prisão? O mundo exterior não se tornou menos real porque o prisioneiro não consegue vê-lo. Usando o escape dessa forma, os críticos escolheram a palavra errada e, ainda mais, estão confundindo, nem sempre por erro sincero, o Escape do Prisioneiro com a Fuga do Desertor.”.
E, no consolo, o professor nos dá o final dos contos de fadas: viveram felizes para sempre. Este é o consolo final, que vem após uma tremenda reviravolta e nos faz achar que tudo estava perdido, que apesar de todas as tristezas – e até da artificialidade do final, tão quanto a do início: era uma vez -, o Belo Reino continuará bem, assim como ele já existia antes do “Era uma vez”, mostrando que cada história só acontece em um período do eterno Belo Reino, existente enquanto existimos, mas não por consequência nossa.
“O consolo das histórias de fadas, a alegria do final feliz, ou mais corretamente da boa catástrofe, da repentina “virada” jubilosa (porque não há um final verdadeiro em qualquer conto de fadas ) essa alegria, que é uma das coisas que as histórias de fadas conseguem produzir supremamente bem, não é essencialmente “escapista” nem “fugitiva” [...] Ela é uma graça repentina e milagrosa: nunca se pode confiar que ocorra outra vez.”
E é com esta graça milagrosa que não podemos confiar que a matéria termina. Espero que todos vivam felizes para sempre.

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